Como está a nossa saúde mental com o uso excessivo da Internet?
- Gabriella Sperati
- há 3 dias
- 5 min de leitura
Por Eliana Aparecida Conquista
Psicóloga – CRP/SP 42.479
CEO da Conquistah Consultoria Psicológica

Em resposta a esta pergunta, iniciaremos mostrando que a era da hiperconectividade trouxe uma mudança sem precedentes na psique humana. No Brasil, onde os internautas passam, em média, mais de 9 horas por dia conectados, a fronteira entre a vida física e a digital tornou-se tênue. Esse cenário não apenas altera nossas emoções, mas é um fator determinante para o surgimento de diagnósticos clínicos.
Iniciaremos o nosso artigo, mostrando, primeiro, as principais estatísticas e dados de 2024-2025:
Acesso e Uso: mais de 90% da população branca e cerca de 88% da preta e parda no Brasil utilizaram a internet em 2024;
Idosos Conectados: o uso por idosos cresceu significativamente, atingindo 69,8% em 2024;
Mudança de Dispositivos: Acesso via TV saltou de 11,3% (2016) para 53,5% (2024), enquanto o uso de computadores caiu de 63,2% para 33,4%.
Redes Sociais no Brasil: Aproximadamente 150 milhões de brasileiros usam redes sociais (70,4%), com um aumento de 6 milhões entre 2024 e 2025.
Vale lembrar que, a presença digital de uma pessoa é vasta, rastreável e gera "pegadas digitais" em todas as redes sociais.
Cerca de 94,7% dos usuários globais utilizam redes sociais mensalmente, enquanto no Brasil, 70,4% da população usa plataformas sociais.
Um dos maiores gatilhos emocionais da internet é a exposição constante a vidas aparentemente perfeitas. Isso cria um ambiente de comparação social negativa e distorção da realidade, levando as pessoas a compararem sua própria rotina com os ideais apresentados pelos outros, o que pode gerar sentimentos de inadequação. Entre as consequências, destacam-se o aumento da insatisfação com a autoimagem, a dismorfia corporal — transtorno obsessivo-compulsivo em que a pessoa percebe o próprio corpo de forma distorcida, enxergando “monstruosidades” onde há apenas pequenas imperfeições ou nenhuma — e a anorexia nervosa, transtorno alimentar no qual a pessoa apresenta baixo peso corporal, embora se veja como obesa.
Estudos revelam que, na hiperconectividade, 45% dos internautas apresentam quadros de ansiedade/depressão, criam uma dependência digital - o cérebro processa notificações como picos de dopamina, criando um vício similar ao de substâncias químicas. Além desses quadros, temos também o quadro de nomofobia - medo irracional e angústia extrema ao estar desconectado ou sem o celular.
A necessidade de estar “sempre online” gera um estado de alerta constante, prejudicando o funcionamento do cérebro. Como consequências, temos a síndrome de fomo - medo de estar perdendo algo importante, que impede o relaxamento -, o impacto cognitivo, que leva ao consumo de vídeos curtos prejudiciais à concentração, enquanto a luz azul das telas inibe a melatonina, causando insônia.
Temos, ainda, outras pesquisas independentes com crianças, que demonstram a relação entre uso intensivo de mídias digitais e bem-estar psicológico prejudicado. Estudo realizado com quase 14 mil crianças com idades entre 9 e 12 anos e publicado em 2025 pela revista científica Pediatrics indica que crianças que já têm acesso a celulares aos 12 anos apresentam maior risco de ter sintomas depressivos, insônia e obesidade, sobretudo quando não há supervisão de tempo de uso.
O pediatra Daniel Beckernos, referência em saúde infantil, tem sido enfático: “uma criança exposta sem controle ao TikTok está sujeita a prejuízos físicos, mentais, emocionais e sociais seríssimos”, alerta, destacando que, quanto mais tempo em redes sociais, maior a probabilidade de sintomas como tristeza e dificuldades de desenvolvimento emocional.
Revisões sistemáticas sobre tempo de tela e saúde mental em adolescentes mostram que o uso excessivo está associado a sintomas de ansiedade e depressão, especialmente entre meninas.
Iniciativas como o Movimento Desconecta, criado por mães preocupadas com a hiper conexão de crianças e adolescentes, também reforçam a necessidade de limites e de reconectar a infância com atividades reais, que valorizem o brincar, a natureza e o convívio presencial para diminuir os riscos à saúde mental.
Temos também o Burnout digital - síndrome que tem levado crianças e adolescentes a quadros de exaustão tão severos que resultam em internação em clínicas psiquiátricas, pois não é apenas cansaço excessivo após um dia com o celular na mão. O termo ainda não consta formalmente em manuais diagnósticos, mas tem sido usado por clínicos e pesquisadores para descrever o estado de exaustão mental, emocional e comportamental relacionado ao uso excessivo e desregulado de telas, redes sociais e mídia online.
No burnout digital, o que começa muitas vezes como diversão ou entretenimento pode evoluir para uma sobrecarga silenciosa: estímulos incessantes, expectativa de resposta imediata a mensagens, comparação social em redes e atividades que competem com sono, interação real e outras experiências essenciais para o desenvolvimento infantil.
A Alemanha inaugurou recentemente uma clínica para crianças e jovens dependentes digitais. Uma equipe multidisciplinar do hospital oferece atividades que deveriam fazer parte do cotidiano, como respirar com calma, olhar nos olhos, dialogar, reconhecer o próprio corpo, se movimentar. Especialistas em infância relatam que adolescentes em abstinência digital chegam a passar noites sem dormir, choram, gritam, ficam extremamente irritados. E, aos poucos, são capazes de reaprender a conversar, brincar, interagir, durante o processo de desintoxicação digital.
No ano passado, a Rede Globo exibiu reportagens sobre jovens viciados em telas e os impactos desse vício em suas vidas. Uma das histórias retratava um adolescente de 15 anos que recebeu seu primeiro celular aos seis anos de idade, dado pelos pais para que pudessem realizar suas tarefas com mais tranquilidade. O pai do jovem, que apresentava dependência grave de telas, mostrou imagens das mais de 40 mordidas que sofreu durante crises de abstinência digital do filho.
Crises de ansiedade paralisantes, agressividade intensa e episódios de automutilação são outros sintomas graves que podem levar crianças e jovens à internação. Um estudo publicado na revista Child Psychiatry and Human Development analisou dados de mais de 1.100 admissões em unidades de psiquiatria pediátrica antes e depois da pandemia de Covid-19. Os pesquisadores identificaram que, problemas associados à comunicação online e dificuldades em estabelecer limites e conflitos decorrentes do uso digital foram responsáveis por uma parte significativa dos casos, incluindo aqueles que exigiram internação.
O porquê destes estudos? Em um mundo cada vez mais conectado, crianças e adolescentes estão crescendo com acesso precoce a tecnologias que, se não mediadas, podem impactar o cérebro em desenvolvimento, relacionamentos e regulação emocional. Embora o burnout digital seja ainda um conceito em construção, já há evidências científicas e casos reais que mostram seu potencial de causar sofrimento profundo quando não há limites e suporte adequado.
Por outro lado, para os idosos 60+, com declínio cognitivo, as redes socias podem funcionar como "treinadores cerebrais", estimulando a memória, a linguagem e mantendo o idoso mentalmente ativo através de diálogos e jogos levando à redução da solidão. Para idosos com mobilidade reduzida, a Inteligência Artificial pode oferecer companhia constante, lembrando de remédios ou apenas conversando, o que ajuda a manter a saúde mental estável.
No entanto, a vulnerabilidade a golpes nesse público aumenta: a "cabeça" do idoso pode ser mais suscetível a manipulações por IA (inteligência artificial), como clones de voz de parentes (vishing) pedindo dinheiro. A dificuldade em distinguir o que é humano do que é gerado por máquina gera um estado de alerta e estresse constante.
Tanto a saúde mental na esfera digital de crianças/adolescentes e idosos 60+ não exige a exclusão total da tecnologia, mas o estabelecimento de limites claros e acompanhamento dos responsáveis. O aumento das doenças mentais associadas às redes sociais é um sinal de alerta para a prática do "detox digital".
Se você sente que o uso da internet está lhe causando sofrimento ou a algum ente amado, peça ajuda! Nós, da Conquistah Consultoria Psicológica, podemos avaliar, orientar e ajudar a lidar com essa situação tão presente em nosso cotidiano.




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