GESTAÇÃO - TEMPO DE AMAR
- Gabriella Sperati
- 20 de jul. de 2025
- 5 min de leitura
Maria do Carmo Braga do Amaral Tirado
CRP/SP 06 42494-0
Parceira ConQuistaH Consultoria Psicológica

O que dizer de uma grávida? Via de regra quando a olhamos na rua, no trânsito, no transporte público, junto a amigos e entes queridos, corriqueiramente surge um estopim de alegria. Na família então, nem se fala! Quase sempre, essa notícia cria inúmeras expectativas; começam a pensar nas roupinhas, no sexo, com quem vai se parecer etc.
Contudo, nem sempre, para a mulher, essa notícia é encarada dessa forma. Naquele momento aquela futura mãe, já se sente “meio diferente”, uma explosão de sentimentos e receios emergem. Nem todas contam com apoio do pai da criança (ou de quem o substitua) e têm que lidar não só com questões hormonais, como também com um misto de emoções e incertezas.
Desse modo, Bortoletti et al (2010) particularizam a gestação como um momento suscetível a desenvolver comprometimentos psíquicos, necessitando de atenção holística e atuação interdisciplinar.
Assim sendo, essa clientela necessita de intervenções e técnicas próprias na prevenção de transtornos emocionais. Além de um atendimento obstétrico adequado, deverá, muitas vezes, necessitar de atuação psicológica específica e direcionada.
Nesse sentido, o que dizer da parturiente que a despeito do que imaginava de seu parto, vem a sofrer situações inusitadas e inesperadas no momento desse evento, considerado um dos mais marcantes da vida de uma mulher?
A perda gestacional, seja ela espontânea ou induzida, é um evento complexo com implicações psíquicas e físicas, passando por um processo de dor e luto.
Há os casos em que a criança sobrevive; porém, aqui, entramos noutro aspecto, não menos importante, que é dos partos prematuros e suas consequências.
Em ambas situações, a mulher necessita de muito acolhimento. Se o bebê não sobreviveu, ela terá que viver esse luto, deverá buscar ajuda médica e necessariamente terapêutica. Algumas mães tentam passar por cima desse fato; porém a experiência mostra (na prática) que tal conduta traz sequelas, muitas vezes, irreversíveis. Ela sempre vai pensar de como seria essa criança, vai imaginar mil coisas, vai se sentir culpada e todos esses fatores poderão comprometer suas gravidezes futuras e sua sanidade mental.
No caso de partos prematuros, a fantasia do bebê perfeito (idealizado), dificulta a vinculação, que é primordial para o estabelecimento da ligação materno-filial. Portanto, é fundamental o incentivo à amamentação e aos cuidados neonatais.
Esses cuidados, em vários casos, ficam na mão da equipe médica e de enfermagem, que comumente vemos nas UTIs Neonatais. Essas mães e os pais (ou quem os substitua), terão que se revezar nas visitações e acompanhamento dos boletins médicos. Para a mãe seria primordial que fosse todo dia visitar o recém-nascido; porém nem sempre isso é possível, ora por questões econômicas, ora físicas (ou ambos os casos).
Tudo vai depender não só do preparo da paciente, como também do tipo de personalidade, apoio familiar e resiliência para enfrentamento da situação.
Entendendo que o parto isoladamente é só uma parte do ciclo gravídico-puerperal, que se inicia na gestação, terminando após 3 meses do nascimento da criança (parto psicológico), tudo dependerá das vivências, não só atuais, como também pregressas, dessa mulher.
De qualquer modo, as implicações poderão comprometer sua vida reprodutiva — o que deverá ser trabalhado junto à paciente, pois há sempre uma idealização que não foi correspondida pela realidade; muito embora saibamos que experiências difíceis podem fortificar e amadurecer a mãe e a família como um todo. Mas, seguramente, passarão por etapas de enfrentamento.
Recentemente, tive contato com uma mãe, cujo panorama era bem delicado; desde a ausência do pai da criança, parca condição socioeconômica, gêmeos prematuros, outros filhos, com dificuldade de subsistência. Impressionante quando a visitei, vi a força que tinha dentro de si, apesar da sua condição física e financeira tão difícil. Isso sem contar com as questões advindas dos bebês com baixo peso e possíveis sequelas respiratórias. Essa mãe representa um sem-número de mães que passam por essa adversidade e dão conta, mesmo com muitos desafios.
Tudo isso mostrava ali, um quadro muito desanimador e com séria possibilidade do incremento de depressão pós-parto, muito comum nesses casos.
Embora as evidências fossem essas, na atualidade os bebês estão em casa, crescendo.
Foram mobilizadas algumas pessoas que a estão auxiliando com leite complementar à amamentação, que nessa situação se fez necessário. Embora saibamos, por experiência, que nada substitui uma boa amamentação. A mãe está, na atualidade, com sua saúde um pouco melhor. Ou seja, as coisas que pareciam desastrosas no início, tomaram outro norte. Só o fato dos bebês estarem crescendo de maneira saudável, só isso é uma grande “bênção” aos olhos da genitora e pessoas próximas.
Uma coisa é certa: a fé, a esperança e o amor dessas mães é incrível! Amor no sentido mais puro (ágape) e fé coligada à esperança, que faz delas perfeitas “leoas”. Falo isso porque trabalho nessa área há muito tempo.
Por pior que pareça, no início, o parto prematuro, quando bem direcionado, pode mostrar outros cenários, embora saibamos que algumas crianças poderão desenvolver algumas sequelas importantes, tornando-se essencial que os pais busquem atendimento mais especializado. Ora, pelo SUS, ora pelos convênios ou particularmente. Bem direcionadas, as famílias correm atrás dos serviços disponíveis. Quantas que recorrem a liminares para obtenção de direitos etc. Mas claro, precisam de indicações e acolhimento familiar para dar conta de tantas coisas.
Para isso, terão que contar com pessoas ao redor que se sensibilizem e ajudem. Muitas mães reclamam que mal conseguem dormir à noite, têm que ter o mínimo de estrutura para superar a fase inicial e seguir em frente.
Nenhum bebê vem àquela família “por acaso”, sempre há um grande aprendizado por detrás. Algumas mães chegam, com o tempo, a passar sua experiência para outras, mostrando-se receptivas e calorosas.
Nas UTIs Neonatais encontramos pais que falam entre si, nos corredores dos hospitais, choram e sorriem juntos. Quando um bebê morre, todos se condoem, ora por temerem que isso também aconteça com o seu, ora por terem criado uma profunda afetividade com as outras crianças e suas famílias.
Cada vez que um bebê vai para casa, há um misto de alegria e medo de como cuidar sem o aparato do hospital e tudo isso deve ser trabalhado para que essa mãe receba a maior ajuda possível. Os Bancos de Leite são fundamentais nesses momentos. Quase sempre, em Hospitais-Escola há um, e em algumas redes particulares.
Muitos caminhos surgem às mães, mas o fundamental é o acolhimento e escuta ativa (ouvir tudo que há a ser dito pela mãe e, só depois, intervir de forma empática).
Ser mãe e pai são funções importantes, que não vêm com receita pronta, infelizmente. Cada uma ou um vai se autodescobrir nesse mister. Porém, apesar de que gravidez nem sempre é sinônimo de eterna felicidade, ainda é uma grande oportunidade na vida de quem deseja ter filhos, ou mesmo daquelas que nunca pensaram sobre, mas que gestaram.
Até porque, tem muita gente que jamais engravidou, mas se tornou ótima mãe adotiva, e quantas e quantos avós, avôs, tias, tios que fazem esse papel brilhantemente. Portanto, esse artigo vale a todos.
Encerro homenageando uma grande mãe que conheci que, ao perder seus dois filhos, vítimas de um câncer raro, adotou 3 lindas crianças e que hoje constituiu uma família muito unida. Por motivos éticos não posso dar seu nome, mas quero frisar o seu exemplo.
Escolhas na vida dependem de cada um, em ter filhos (ou não), em saber lidar com todas as contingências inerentes a isso. Uma coisa é certa...
A decisão é nossa...
Só nossa!




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