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  • Gabriella Sperati

Sonhar, sonhar, sonhar!

Maria do Carmo Tirado

Psicóloga

CRP/SP 42494


Quando me pediram para fazer um artigo sobre sonhos, me deparei com a seguinte questão: devo falar de sonhos realizáveis ou não? Devo falar sobre a produção onírica e suas consequências? Cheguei à conclusão de que ambas colocações são cabíveis e pertinentes, pois se associam.


Recebi ontem, de uma amiga, a seguinte fala: “A gente precisa sonhar para a vida florescer”. Pode parecer um simples chavão, mas de fato, refletindo, cheguei à conclusão que não é. Quando sonhamos, ampliamos nossa visão restrita a olho nú, acessamos uma parte, de certa forma, obscura do nosso inconsciente e, ali, pode-se trabalhar emoções, sentimentos, interesses recalcados, aspirações frustadas, bem como os mais puros ideais, dependendo do que há armazenado.


O homem é sempre aquilo que guarda, consciente ou inconscientemente, nos complexos mecanismos da mente.


Atendendo há vários anos, tive a oportunidade de conhecer uma garota que morava na periferia, com parcos recursos econômicos, a quem darei o nome de Maria. Apesar da pouca idade e apresentando sérios problemas emocionais, tinha um sonho que, com apenas 22 anos, estaria concluindo uma graduação e defendendo causas igualitárias e de cunho social. Todos os dias, focava seu pensamento nisso e, qual foi minha surpresa, quando recebi a apresentação, por vídeo, de seu Trabalho de Conclusão de Curso(TCC).


Isso mostra que aquilo que introjetamos pode se tornar realidade, desde que haja um esforço próprio e que consigamos vencer alguns recalques inconscientes, que costumeiramente transparecem na atividade onírica (o sonhar).

Sonhos podem ser realizáveis sim, mas dependerá de uma série de fatores. Claro que existem aqueles absolutamente inacessíveis, mas a maior parte pode ser concretizada ou, ao menos, substituída por ideais nobres.


Vocês já viram pessoas que, desde pequenas, sonham que estão salvando vidas? E não é que quando crescem tornam-se bons profissionais da saúde? Eu já ouvi isso várias vezes em consultório. Prova que o sono é um momento precioso, quando se aproveita aquilo que está latente e precisa, muitas vezes, ser manifesto.


Certamente se, durante a vigília eu só sintonizar coisas destrutivas, não buscar um aprimoramento interno, se eu for absolutamente egocêntrica, não tem como, ao dormir, me tornar uma pessoa melhor, mesmo que o meu inconsciente clame por isso. Daí a importância em olhar para dentro da minha pequenez e enxergar o que preciso fazer para a minha reforma interior. E ela é só minha, de mais ninguém...



Para Jung, os sonhos constituem as mais claras expressões da mente inconsciente: “A função geral dos sonhos é tentar estabelecer a nossa balança psicológica pela produção de um material onírico que reconstitui, de maneira útil, o equilíbrio psíquico total” (Jung et al., 2016, p. 52).


Para Freud, o sonho constitui "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Possui um conteúdo manifesto, que é a experiência consciente durante o sono, e ainda um conteúdo latente, considerado inconsciente. “Permanecem assim os estados oníricos, em que as fixações de ordem sexual assumem expressões de realidade, dominando os setores psíquicos da personalidade.”, continua Freud.


Segundo Francis Crick - ganhador do prêmio Nobel por suas pesquisas sobre o DNA - e Graeme Mitchison, “sonhamos, não com as memórias que estão sendo consolidadas, mas com aquelas que estão sendo apagadas”. Para eles, o sono REM (fase de maior atividade cerebral durante o sono) é necessário para a eliminação de informações erradas ou inúteis armazenadas no cérebro. O sonho seria o reflexo de um processo de aprendizagem reversa, no qual determinadas sinapses são enfraquecidas. Essa citação nem sempre recebeu apoio no meio acadêmico, mas é frequentemente citada, portanto cabe-nos colocá-la aqui.


Existem remédios para dormir que são mais benignos, por exemplo, a melatonina, por ser produzida pelo próprio cérebro. Já os remédios hipnóticos, dão uma desligada no cérebro. Há que se ter muito cuidado na indicação deles, pois seu uso inadequado, pode criar dependência e péssima qualidade do sono e dos sonhos. Segundo Sidarta Ribeiro, Neurocientista, “acho que estamos vivendo uma epidemia de drogas no Brasil sim, mas de drogas lícitas, vendidas em farmácia e as pessoas estão utilizando drogas para acordar, dormir, fazer sexo, para tudo, então, estão substituindo a nossa farmácia interna por uma série de substâncias e nós não funcionamos assim. Uma hora você começa a ter um prejuízo”.


Isso nos faz pensar quão estamos negligenciando no dia a dia, o que é prioritário. Não incomum, os indivíduos trabalham excessivamente, sem tempo para uma alimentação adequada, que interfere diretamente na parte digestória; muitas vezes não se exercitam; não cultivam um lazer sadio e tampouco preocupam-se com o seu interior. A possibilidade de não conseguirem atingir um sono reparador e tranquilo, é imensa. Como exemplo, citamos alguém que, tendo jantado uma feijoada, não tem como, na hora de dormir, não sentir os reflexos dessa alimentação. Do mesmo modo, por vezes, nos alimentamos de maus pensamentos e hábitos. Por analogia, teremos provavelmente, noites de sono bem desagradáveis.


Via de regra, há pessoas que trazem, nas noites mal dormidas, preocupações excessivas e, assim recorrem a medicamentos, se auto boicotando. Além disso, muitas acordam com a sensação de que não dormiram ou se sentindo mal.


É importante lembrar das fases do sono, conforme abaixo:

Estágio 1: etapa do adormecimento.

Estágio 2: sono mais leve.

Estágio 3: o corpo já começa a entrar em um sono profundo, onde a atividade cerebral começa a diminuir.

Estágio 4: sono profundo, no qual corpo repõe as energias do desgaste diário.


Desse modo, um preparo prévio pode auxiliar nesse processo, antes de dormir: desligar celulares, TV, laptop e qualquer outro aparelho que possa nos dispersar; fazer uma boa e breve leitura (preferentemente tema leve); fazer uma prece (se for seu hábito); se possível, manter a luz totalmente apagada, ou apenas uma luzinha escondida, e o mais difícil, desligar a mente das contas a pagar, dos problemas domésticos, do trabalho do dia seguinte, do filme e da série que estava assistindo.


Tente substituir esses pensamentos por algo edificante; desfoque com um relaxamento, tente se ver num local calmo e envolvente, vá elevando sua mente a um estado mais tranquilizador e depois, vagarosamente, feche os olhos, permitindo ser levada a um outro estágio mental, no qual se fundirá a várias sensações, algumas bastante satisfatórias, dependendo de como você leva a vida e o que atrai para si mesmo.


E assim, provavelmente, acessará um nível de inconsciência necessário para ter ideias, soluções e até trabalhar seus conflitos escondidos, onde as ondas mentais serão conduzidas mediante o desprendimento de cada um, encontrando ali não só a energia que necessita para o estado de vigília, como também pode acordar intuído e inspirado para as lides do dia.


Dessa forma, as realizações externas serão profícuas, haverá mais paz interior e melhor forma para lidar com os problemas. Esses, sempre existirão; contudo se conseguimos nos afastar de algumas neuroses, de fixações de cunho sexual, de estados alucinatórios momentâneos, entre outros, teremos uma melhor qualidade de vida e de sono, como consequência direta. Cada noite que se dorme, é como se morresse por um período e ressuscitasse na vigília.


Daí, o cuidado com uso de medicamentos, aquilo que se vê antes do sono, os pensamentos intrusivos e as ligações que se estabelece no seu mental. Isso poderá definir a terapêutica que mais precisamos para o nosso bem-estar.


Às vezes, o que mais necessitamos é de autoconhecimento e bons sentimentos e, se nos sentirmos incapazes de lidar com tudo isso, um bom profissional da saúde, como Psiquiatras e Psicólogos podem ajudar nesse processo, para nos tornarmos seres melhores e mais evoluídos em todos os sentidos.


Pense nisso...


A decisão é nossa! Só nossa!

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